domingo, 18 de fevereiro de 2018 0 comentários

Uma quarta-feira de cinzas

O folião dorme na madrugada de quarta-feira, ainda sob o efeito da bruma encantada que habita o carnaval, mas acorda na cama (ou fora dela) sob a régia de outra lógica: a ordem imposta pela razão do homem, a necessidade de produção, o fazer render a jornada a partir do que manda o mercado.

Dá uma onda súbita: privado bruscamente da alegria projetada pela arrebatada coletividade, o cidadão não pode mais se anunciar como folião e volta a ser trabalhador. Ou não trabalhador — afirma — porque percebe aquele isopor que usou pra faturar uma grana durante a farra de Momo e constata que precisa fechar as contas do mês.

São assim as festas: findo o desvario, virá sempre o dia seguinte. Mas o sucesso do carnaval é tamanho — e o carinho brasileiro por ele — que existe nome especial para esse dia estranho: chamamos essa quarta-feira inevitável de quarta-feira de cinzas. Graças a ela, o folião não sofre demais com o fim da festa, a quarta-feira de cinzas se encarrega do exagero. A manhã é nossa, o expediente fica para depois do meio-dia.

Essa manhã de quarta-feira existe de ser um interregno, povoado de promessas recém inventadas e pedidos óbvios de compreensão. Às vezes, pedidos de casamento.

Nos últimos anos, a necessidade de folia cresceu muito e a vontade de esticar a farra tem sobrepujado essa tradição da quarta-feira de cinzas. Tanto é assim que dizem: há empresas onde se premiam bons funcionários com o gozo de mais três dias de festa. O cara trabalha bem, traz lucro a valer para a empresa, o chefe vai e entrega assombrado a quarta de cinzas, as próximas quinta e sexta, fechando mais um final de semana para ele curtir com a família.

Nesse caso, o encanto da quarta-feira de cinzas toma o espaço do domingo seguinte. É quando se dobra o folião para o fantástico descanso do corpo, da mente e do espírito, submetidos anteriormente ao léu pela intensa exigência da festa. Ao folião se pedirá sossego para o estômago, uma desopilada indispensável do fígado, a paz para a fadiga dos braços e pernas, e alguma virtude de silêncio, capazes de no perde e ganha do jogo da vida prepará-lo para as novas artimanhas do tempo. Uns no domingo, a maioria na quarta-feira de cinzas. Tome vantagem.
    
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sábado, 3 de fevereiro de 2018 0 comentários

Uma vida boa

Há coisas que não se pode negar. Uma tosse seca, por exemplo, tanto à noite quanto de dia. Deve ser o sinal de que uma gripe se aproxima e a saúde precisa de um trato. Também não se pode negar a alguém um copo de água ou um prato de comida. Proprietários de restaurantes sabem, todo mundo sabe que esses doam à população de rua as sobras da cozinha ao final do expediente. Outra coisa importante: um homem não nega a sorte que tem, isto sim um insulto grave a quem carece, a quem vive com dificuldades que um danado com a vida boa mal consegue imaginar. Uma das formas de agradecer pela sorte — talvez a mais simples — é fazer por merecê-la durante o tempo da jornada. Trabalhar com garra e com seriedade, tarefa sempre dura de cumprir. Ter garra não quer dizer ser chato, e ser sério está longe de querer dizer que se despreza a alegria e o humor. Em uma vida boa existe espaço para todas essas coisas e é por isso que uma vida boa importa: ela mostra para os demais, aqueles com menos e quase sempre com o mínimo, por que uma sorte como essa vale à pena. Às vezes, o homem conquista essa vida boa que sonhou ainda jovem, muito jovem, o que tem sido cada vez mais comum, ainda que fora de qualquer razoável proporção, sopra. Muitas vezes, na maioria das vezes, arrisco dizer, só a alcança por graça de um destino básico, depois de algumas convivências gostosas e amores, apaziguado ao ar livre por uma vista livre de fantasmas. Se atormentado, dorme sem saber que não se trata de usufruir da autoridade. Uma vida boa pode não estar no bojo das respeitáveis e poderosas instituições. É até surpreendente que lá esteja, porque uma vida boa até que necessita de privacidade. Célebre ou não, uma vida boa nasce, cresce, reproduz-se e um dia, como as outras, vai embora. Não se pode negar. Sem pressa.                      
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sábado, 20 de janeiro de 2018 0 comentários

Tatuagem: Tatoo Week






















Olhando de cima deste meu pódio clássico em breve relevo — point sem dúvida alguma selvagem, que hoje costumam chamar de lugar de fala — fica impossível discordar de quem afirma que a pele sempre foi uma questão entre os homens. A galera que curte tatuagem sabe bem disso. Conhece muito o assunto. Realizaram fim de semana passado a Tatoo Week Rio e eu fui conferir.

Logo que aceitei o convite da organização comecei a questionar-me sobre o tesão dessa tribo. Eu não tenho tatuagens. Quando eu era menino quem curtia tatuagem exibia uma aura de inequívoca contestação marginal, e certamente sofria uma bruta reação social contra aquela liberdade na pele. A pessoa que tatua um desenho caprichado na pele não o faz apenas para se admirar secretamente ao espelho no breu de sua cápsula doméstica. Tatuagem é um lance que se ostenta. Na rua. Faz-se uma, duas, três e por aí vai, a pele à vista vira uma tela onde exibem sua arte um ou mais artistas.

Arte.

Participar da Tatoo Week foi conhecer um pouco dessa gente com arte à flor da pele. Que ostenta pelas ruas desenhos coloridos e frases de efeito nos corpos descobertos. Tento uma crônica para falar desse universo, mas uma crônica é pouco: lembro dos stands arejados, dos participantes que se acomodavam nas confortáveis cadeiras, aguardando pelo momento de comparar no espelho a arte do desenho com a imaginação. Havia quem conseguisse dormir, enquanto a artista ainda trabalhava com as agulhas.

Faz tempo que tatuar deixou de ser um trabalho de homem, se é que um dia foi. A mulherada contemporânea tatua de igual para igual. E se tatua direto. Nesta Tatoo Week, organizaram um desfile, dividido em categorias (beach, pin up, body modification e plus size), e escolheram a miss tatuada mais linda do evento. Monique Evans foi uma das juradas, sua namorada Cacá Werneck foi a DJ. O público presente vibrava com a ousadia daquelas misses, que subiam no palco para exibir a sua liberdade de cuidar plenamente do próprio corpo.

Ostentavam sua vitória, porque não é fácil. É necessário. Se alguém vive alegre neste mundo, vivendo como quer, com a face (e o Face) voltada para o horizonte, e batem palmas, conte mais que um. Pense em dois. Pense em três. Pense em cem ou talvez em mil. Em mais que dez mil. Ouça o clap das palmas sonoras, que celebram a iniciativa. Olha aquele corpo ousado e tatuado. Por isso, o evento: Tatoo Week. Por isso, ir.

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domingo, 7 de janeiro de 2018 0 comentários

Viagemderepente.com.br

— Vamos passar as férias em algum lugar.
— De avião ou de carro?
— Prefiro de avião.
— Pousada ou camping?
— Não pode ser hotel?
— Se formos de avião, só camping.
— Já não tô gostando. 
— Levamos as crianças ou deixamos com sua mãe?
— Podemos levar minha mãe.
— Já não tô gostando.
— Você implica com tudo.
— Viajar não é fácil.
— É difícil curtir uma viagem?
— Tá ruim.
— Podemos alugar nosso apartamento e usar a grana pra viajar.
— Você quer dizer alugar com tudo dentro?
— O notebook a gente leva.
— Meu perfume também.
— Aquele fedido que nos custou os olhos da cara? Deixa aí.
— Deixa aí também aquele kindle de ouro que você não usa.
— Eu uso, eu leio.
— Lê a Netflix, isso sim.
— Eu estou a fim de viajar.
— Tem uma promoção show no viagemderepente.com.br
— Qual?
— Motel na Tijuca, pernoite durante o fim de semana, 80 reais.
— Tem piscina?
— Hidromassagem e sauna.
— Fechou.
— O frigobar é por minha conta.

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terça-feira, 26 de dezembro de 2017 0 comentários

Caixinha

— Vai dar o dinheiro?
— É fim de ano, tem que dar.
— Mas a gente tá apertado.
— É melhor dar.
— Por que é melhor?
— Assim vão nos tratar bem.
— Eles têm que nos tratar bem sempre.
— Verdade, mas não é assim que funciona.
— Tá errado isso.
— Errado estamos nós que não temos dinheiro.
— Você gastou demais este ano.
— Foi necessário. 
— Foi necessário aquele celular novo?
— Sim. 
— Aquele tênis?
— Sim.
— Foram necessários o notebook e a tevê?
— A tevê foi você quem quis.
— Mas você escolheu o modelo. 
— Se é pra gastar com tevê, quero uma imagem boa. 
— Mania de gente besta.
— Melhor ser besta que outra coisa. 
— Que coisa?
— Gente besta não precisa de caixinha.
— Gente besta dá a caixinha.
— Enfim concordamos, vou dar o dinheiro.
— Pergunta se tem trocado.

Meus queridos leitores, Boas Festas! Feliz Natal e um Próspero Ano Novo! Até 2018!   

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segunda-feira, 11 de dezembro de 2017 0 comentários

Crônica do Facebook: nove mentiras e uma verdade

1 – Estive uma vez com a razão e ela não lembrou meu nome.

2 – Roubaram-me uma bola depois de uma pelada entre amigos. Os pivetes saíram correndo com ela nos pés, tocando a bola entre eles e subindo a rua. Nem eu nem meus amigos tivemos habilidade o bastante para tomá-la de volta.

3 – Já vi ruas brancas, pretas, vermelhas e amarelas. Suspeito que exista uma rua cor de rosa, mas cravejada de pedrinhas de brilhante eu duvido.

4 – Em um pesadelo vi Stallone e Schwarzenegger trocarem flores no dia dos namorados.

5 – A cachorrada do bairro late sempre quando saio do banho. Não sei se decoraram o horário ou se detestam meu desodorante.

6 – Parece que acreditar nunca me trouxe problemas, mas só parece.

7 – Se viajo de avião, evito a janela e vou no corredor. Não me interesso pelas nuvens.

8 – Fogos de artifício estouraram uma tarde ao lado de minha janela e fizeram a alegria da pomba que morava no buraco do ar condicionado.

9 – Depois de lançado o walkman, caminhei anos sem ouvir música.

10 – Meu coração já coube em uma caixinha de fósforos e acendeu todas as quarenta vezes.
    
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sábado, 25 de novembro de 2017 0 comentários

Crônica da prateleira: o bardo

Outro dia comprei o teatro completo de Shakespeare. Chegou aqui em casa sem fazer estardalhaço, em uma embalagem discreta, sem dizer a ninguém — quem escreveu foi Shakespeare! Não pensem que foi barato, o bardo inglês escreveu muito, em qualidade todo mundo sabe, mas também em quantidade. Precisei dividir no cartão de crédito. Uma edição linda de azul, da Nova Aguilar, em três volumes, tradução da Barbara Heliodora, o miolo em papel fino, a entrelinha caprichada.

Fiquei contente. Agora posso ler William Shakespeare com calma. Faz um tempo comprei o teatro completo dele em inglês, estava com preço bom. Mas quando fui provar o inglês original da época em que William viveu, me danei por inteiro. Larguei o livro na minha estante, no momento conversando entre um volume de Jorge Amado e outro de Truman Capote.

Amigos escritores que postam em redes sociais, assim que vêem o próprio livro em uma prateleira, ou em uma vitrine bem bonita de livraria, correm para tirar uma foto com o celular, para mostrar à comunidade ao lado de quem tiveram a honra de figurar no panteão. Eu considero um lance bacana para uma primeira vez, depois vira rotina (será?), então não vale. Mas da primeira vez vale, significa alguma coisa, no mínimo uma imagem para se guardar: seu texto na vitrine de uma livraria, exibido ao lado das obras de figuras lendárias, que são ou foram pagas para escrever. Muita gente boa não tem nem teve essa sorte.

Diante de minha estante cheia, optei por meter o teatro completo de Shakespeare em uma prateleira à parte, por coincidência sobre o dicionário Houaiss. Vão ficar os dois juntinhos por lá me zoando, o filólogo Houaiss e o dramaturgo mais respeitado do planeta. De vez em quando, é claro que vou tomá-los da prateleira, seja por necessidade o dicionário, seja para passear pela sabedoria do teatro.

Eu tô ligado nessa palavra que confere a ostentação de um poema: o bardo. Baita palavra. 

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domingo, 12 de novembro de 2017 0 comentários

O aprendiz de bechamel e uma travessa de tiramisú

Olha que vivi para ver o dia em que aprenderia a cozinhar comida boa. Minhas habilidades no fogão nunca ultrapassaram o bife na chapa, o ovo frito, uma panela de arroz e outra de carne moída. A variedade do meu cardápio surge com o pão, faço sanduíche de queijo, de presunto cozido, de presunto cru, talvez um hambúrguer, com certeza um cachorro-quente. Mais que isso fica difícil, se me exigirem preciso dos heróis da culinária na tevê para me ajudar. Assisto a muitos deles, porque minha curiosidade é grande, mas infelizmente não tomo notas, nem decoro as receitas. Para agradar uma mesa redonda de esfomeados, portanto, eu teria de recorrer a técnicas de ficção científica: teria de conectar meu cérebro à chef internet e baixar um pacote onisciente de dados, com tudo quanto é tipo de informação necessária para comandar uma cozinha.

Conectar meu cérebro? Putz, ainda bem que existe o YouTube.

Mas não recorri aos vídeos. Fui convidado a receber aulas práticas, e a receita do domingo foi o famosíssimo bechamel — molho de origem francesa que no Brasil recebeu o simples nome de molho branco. Eu sei que renomados chefs de cozinha cultivam grau de exigência alto no preparo e no sabor desse molho gostoso. Acompanhei a cisma deles com o bechamel em vários programas. Trata-se de um clássico e os aprendizes sofrem. Fui aprender então.

O bechamel cobriria umas porções de bacalhau desfiado, e depois tudo seria gratinado no forno. Começamos a preparar o molho com a base de manteiga e cebola no fogo. Acrescentamos farinha e em seguida o leite, sempre mexendo. Juntamos na mistura o queijo parmesão e esperamos tomar consistência, ou seja, engrossar. Pronto! Quase nem pusemos sal, porque o parmesão é salgado. Tem receita que leva pimenta do reino e noz moscada.

Conto mais? Resultado da aula: almoço de domingo! Domingo que pela manhã andava se abanando, avançando pelas beiradas das horas sem chance de novidade. A novidade foi meu bechamel, mexido a quatro mãos, receita que não vou esquecer.
             
E ainda o tiramisú, esse por sua vez preparado por mãos exclusivas, craques na feitura de doces mil. Tivemos que esperar para devorá-lo, pois a travessa de tiramisú precisava de um tempinho na geladeira, para ser servida na temperatura correta, como se deve. Decidimos provar o doce mais tarde, depois de um cochilo reparador no pós-almoço.

Foi assim: travessa de tiramisú na mesa da cozinha, a serviço da dona gula, foi o doce para os pratinhos, e espalhou-se pelas nossas bocas, com gosto forte de cacau, no topo do creme suave e da camada de biscoito.

Sem mais. Comer bem é mergulhar no céu.

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sexta-feira, 3 de novembro de 2017 0 comentários

Resenha de “Amoridades”, de André Salviano

É o livro do Sal.

Ou melhor dizendo: André Salviano, que estreia em livro com este feliz “Amoridades”, 134 páginas, lançado com muito capricho pela Rubra Editora.

Preciso dizer que se destaca no país uma gente jovem talentosa, decidida a enfrentar os reveses da crise econômica e política, reunida não é de hoje em volta de uma ideia genial: publicar bons livros. Refiro-me à turma que atende pela vibe de editoras independentes. Um desses bons livros publicados é justamente este de André Salviano, autor de zelo tão especial pela criação que evita de forma admirável o que seria fatal no primeiro trabalho: fugir de si tristemente e escapar assim do que nos é relevante. Em “Amoridades” não há engano, a literatura vive da matéria-prima que é a existência, essa que nos inspira a continuar, a ir além das portarias e dos supermercados, já que mais interessada em criar do que destruir.

Tanto prazer em criar, em curtir o que a cidade tem de melhor para oferecer, não poderia gerar contos de outro tema que o amor. Sal arranca de si tantas histórias de amor, que resgata para nós o prazer de conhecê-las. Surpreende como autor, porque vivemos tempos em que parece inexistir espaço para o proveito de fortuitos romances, amores importantes de inesperados, amores cheios de gozos mas esquecidos, que nunca foram planejados, amores que apenas partem, amores que por destino surgem. Não parece ser o tempo de tais amores.

Esta é para mim a vocação de “Amoridades”. Nessas páginas se reafirma um jeito de ser da cidade que andava meio sumido, cabisbaixo, caminhando nas sombras, de impressionado com o entra-e-sai de gente se estranhando em tudo quanto é bar, praia, praça e lugar. O autor propõe um retorno carinhoso ao coração de nossos afetos, retorno que funcionaria como chamado à memória de uma já desprezada cidadania. Em seus contos, Sal sente a cidade do Rio de Janeiro. Vive amores enquanto sente o Rio.

Nem tudo corre às mil maravilhas. Os protagonistas em busca de paixões se machucam, sofrem pra valer, o que assusta. Mas procurar viver o amor é o melhor que um homem faz, pela vida, pela cidade, pelos amigos. Deixemos a razão para a rotina de nossos preciosos empregos. “Amoridades” alcança esse registro com honestidade.

Todo homem guarda consigo os anos em que se largou no território das paixões, encontrando nos beijos as alegrias, nos abraços apertados os gozos, em cada sorriso uma via inescapável para a vida. A rotina ajuda a esquecer, dizem. Por isso, escrever sobre o amor sempre. Tarefa difícil, às vezes quase impossível. Mas o Sal consegue.

sábado, 28 de outubro de 2017 0 comentários

Esses drones de outro mundo


Hospedei-me umas férias em um hostel onde pai e filho treinavam pilotar seu drone. Ambos brincavam enquanto eu lia um bom livro, sentado confortavelmente junto ao gramado da propriedade. O simpático aparelho sobrevoou-me à distância de uns oito metros, quase camuflado contra as nuvens brancas daquela tarde. Obviamente, possuía uma câmera acoplada.

Não fiz mais do que dar um aceno básico e escondi depois o rosto atrás da capa do livro. A educação que recebi não inclui regras de conduta na presença de tais aparelhos, a gente tem que aprender com a experiência mesmo. Confesso que fiquei magoado. Não houve da parte daquele drone qualquer sinal ou feedback que comentasse sobre meu comportamento. Será que fiz certo? Agi corretamente? Fiquei sem resposta. Os drones deveriam possuir forma de nos responder em caso de encontro imediato, porque senão passam por mal educados. Que ponham lá no casco do drone voador uns leds em tamanho razoável, de luz amarela ou vermelha, indicando essa ou aquela mensagem. Luz amarela: vim em paz. Luz vermelha: leve-me ao seu líder. Assunto encerrado.

Mas não. E os drones ficam a cada dia mais baratos, se tornam populares. Em pouco tempo uma providência será inevitável: a presença deles no céu terá de ser regulada. Talvez até proíbam o uso particular dos drones, assim como fazem com os balões atualmente. Uma queda de drone tem potencial para ser perigosa. Li que aves de rapina são treinadas para interceptá-los em caso de invasão de espaço aéreo restrito. Houve já um grave incêndio em que os bombeiros precisaram abater drones a tiros, pois os aparelhos em voo atrapalhavam o trabalho de combate às chamas e de resgate das vítimas.

Por enquanto, as queixas são poucas. Ficam limitadas às questões de etiqueta. Viver em nossa sociedade tem suas vantagens, mas o cidadão consciente sabe que deve urbanidade ao vizinho. Olha que logo os incríveis drones serão os super-heróis no céu, como hoje em dia o céu é da cor azul. Gigantes do varejo on line como a Amazon estudam pra valer como utilizá-los para entregar suas encomendas direto nas mãos do consumidor. Não demora e os drones educados pedirão licença batendo com dois dedinhos no vidro de nossas janelas. Em bom português, é claro, eu direi se é minha ou se não é minha a encomenda. E mais, direi também se é hora ou não de recebê-la. Problema do drone, que volte em trinta minutos! Chato que é chato de verdade sabe: de visita inconveniente o inferno está cheio. A dúvida que fica é: enquanto espera, onde o drone vai tomar o cafezinho?
     
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sábado, 30 de setembro de 2017 0 comentários

A rua está um brinco

Foi numa conversa durante um passeio pelo shopping. Paramos diante de uma vitrine a admirar as joias. Os brincos logo chamaram a nossa atenção, mas nós rapidamente nos conformamos: ainda que alguém tivesse a grana para adquirir a joia, não há lugares onde se poderiam usar aqueles brincos sem temer pela própria orelha. A concordância entre nós indicava uma unanimidade, quando em nome do brilho na vitrine veio o argumento: sim, claro que seria possível usar os brincos, existe um acordo que atesta a idoneidade dos brincos, são todos bijuterias baratas, para exibir nas ruas da cidade, não valem uma nota de vinte reais.

Não era obviamente o caso do par de brincos na vitrine do shopping e a sugestão inesperada ganhou ares de provocação. Caiu-me nas mãos a responsabilidade de fazer uma social: não se exibe mesmo nas ruas uma boa bijuteria, seja na orelha, no pulso ou no pescoço, que valha mais do que um lanche nutritivo no McDonald´s. A medida deve ser esta: a necessidade de devorar por completo o trio com hambúrguer de duas carnes, cebola, picles e molho especial, porção de batatas fritas e meio litro de refrigerante.

Daí a dizer que devemos pleitear outra fé, a ensinar que o pouco ou nenhum valor dos brincos alheios permitiria ao pedestre iludir os trouxas, exibindo pelas ruas um par de brincos preciosos que passariam por bijuterias, é crer em um talento inato para os quinze minutos de fama. Olha o brinco! Olha o brinco! Imagino o telejornal local investigando a notícia, esquadrinhando o centro da cidade atrás dos detalhes. Ali na beira da Avenida Presidente Vargas, um grupo de curiosos metidos debaixo de coloridos headphones desmentiria as informações: foi só boato, foi só boato, não vão perder o sono por isso.

Deixamos a sugestão ali na vitrine. Difícil é entender essa gente ansiosa por tempos e brincos melhores. Acho que a galera quer verdade de vez em quando, só para variar. Mas fica complicado crer em tudo que é história hoje em dia. O homem deste milênio alimenta demais a vocação para a calúnia, para a difamação e para a injúria. Não são outros estes tempos de egos superinchados e estimas hiperbólicas. Das calçadas, qualquer um assiste ao espetáculo: ponha a melhor roupa e vá para a rua, conferir de perto a performance dos artistas. Não exagere nos brincos. Não esqueça a grana do lanche.
                          
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segunda-feira, 25 de setembro de 2017 0 comentários

Assuntando

Vem chegando o segundo semestre e com ele os temas do ano começam a tomar conta da imaginação, Copa do Mundo e eleição ameaçam monopolizar os diários de notícias, os telejornais e as rodas de conversa. Nós ficamos sem conseguir escapar, outro dia mesmo tive uma discussão ríspida a respeito dos candidatos a presidente, já no outro dia a discussão foi sobre a convocação da seleção brasileira.

Penso no leitor que tentará fugir da tsunami de informações atrás de certo alívio, vai ser difícil, por onde for, lá estará o grupinho comentando os lances de uma partida ou as novidades sobre as eleições. E os dois assuntos tendem a se misturar, vamos discutir política durante a Copa e vamos falar de Copa quando tratarmos de política. 

A gente sofre por não querer se alienar e a salvação será o cronista, esta raça em extinção, que se apega a temas desimportantes com ares de quem conhece a vida. Um ou outro até vai falar de voto e futebol mas a grande maioria fará o impossível para que o leitor experimente uma reflexão diferente, os tais grandes temas serão só parte do cenário.

Teremos crônicas que serão verdadeiras pérolas, essas ocasiões são propícias às revelações, aos achados, descobrir uma intenção inesperada no meio de tanto falatório é tarefa mesmo de quem anda sempre procurando assunto. É a grande área do cronista, caminhamos por ela com fama de peladeiros, como se não nos importássemos com o gol. Mas, na verdade, quando menos se espera, olha que estamos lá, prontos para o lance que vai tirar o zero do placar.

Outro dia assisti ao belo "Ladrões de bicicleta", de Vittorio de Sica. É um filme em preto e branco de 1948, difícil de achar nestes tempos em que as locadoras sucumbiram ao poder da pirataria e do on demand. Quem gosta desses tesouros não conta mais com a colaboração do pessoal que alugava as novidades, eram eles que bancavam a receita das nossas queridas locadoras. Sem o seu precioso auxílio, as opções diminuem e achar os clássicos é cada vez mais difícil.

Falo do filme porque ele é para quem gosta de fugir do planeta, foi rodado na primeira metade do século passado, é preto e branco e a história é de uma aparente banalidade que espanta qualquer um: roubam a bicicleta de um sujeito e ele sai pela cidade de Roma à procura dela. A beleza do filme é aquela que todo cronista procura quando escreve, quando se olha mais de perto se percebe que não é uma história comum. O cenário é o pós-guerra italiano e os homens lotam as filas de desempregados querendo uma solução do governo como paliativo para a miséria que bate à porta. Antonio Ricci consegue um valioso emprego e para trabalhar precisa mais do que nunca de sua bicicleta. Já no primeiro dia ela é roubada e por aí a história vai. É comovente, é um filme que brilha e que não tem pudor de assumir a tristeza como assunto. Os desempregados eram a parte que a Itália preferia esconder enquanto tentava sair da penúria depois da guerra.

Eu pergunto: que assuntos se escondem sob a sombra larga da Copa do Mundo? Em breve o futebol tomará o lugar de nossos problemas, que serão por algum tempo saber se fulano joga ou não joga, se foi falta ou pênalti. E sobre o quê vamos falar depois, durante as duras eleições que se aproximam? "Ladrões de bicicleta" fica levinho, levinho, feito uma crônica.

Aquele leitor mais apaixonado, que se entrega aos temas da ocasião, está certamente me reprovando enquanto lê. Pareço mesmo o cara que em pleno Carnaval diz não gostar de Carnaval, pareço o cara que não gosta de samba, futebol, mulata e caipirinha. Mas eu penso é em nossa vocação para o exagero e faço a minha propaganda: durantes esses eventos, se cansar dos assuntos, espero que haja um bom cronista de plantão. Vou precisar. 
quarta-feira, 20 de setembro de 2017 0 comentários

Resenha “Mi maior”, de Milena Rodrigues

“Mi maior” é o livro de contos de Milena Rodrigues, 95 páginas, publicado em 2017, pela Editora 7 Letras. Trata-se de obra de estreia e como sempre uma curiosidade me intriga: qual será o tema?
  
Haja história! Neste livro, a autora apresenta quarenta e duas. Quarenta e duas histórias compiladas que representam o início de seu projeto literário. Se acreditarmos que uma estreia trará para o mundo o tanto de busca que em si promete, sonhemos com a habilidade de Milena. A boa quantidade de contos em um único volume impressiona e confere profundidade a esta voz.

Dona de uma escrita clara, de fé em parágrafos bem estruturados, Milena elaborou estes contos com frases de elegante cinismo, onde aqui e ali sobressaem as ironias, com as quais, contudo, não demonstra estar ainda muito à vontade, mas que sugerem para a sua criação um brilho original.

Outra ideia também se impõe: de quarenta e duas histórias, ela poderia certamente ter destacado duas ou três, para maior desenvolvimento. A qualidade dos contos exibe o dom da invenção, mas peca pela sensação de improviso.

“Mi maior” é uma força como primeiro livro. E Milena Rodrigues a recobre com camada fina de reticente otimismo. O exemplo está no conto que entrega o título da obra. O protagonista se resolve na forma de música, a solução está em seguir para o próximo conto. A gente pede bis.
segunda-feira, 18 de setembro de 2017 0 comentários

O dicionário

Lendo um romance surge uma palavra inesperada, que me leva ao dicionário e à surpresa: no dicionário, a frase que serve de exemplo para o verbete é exatamente a mesma que eu lia no romance.

Não sou um homem que acredita em coincidências. Sou um tolo de voz fraca, que por maldade põe mais fé nos livros lidos que na rotina de sua vida. Confesso não querer interpretar o que vivi descrito no parágrafo lá em cima. Alguém talvez sorria, enxergando na coincidência uma trama de feliz destino, ter encontrado entre as palavras a sorte de uma vocação essencial. Outro leitor talvez me considere uma espécie de fanático, um dos que certamente inventam a coincidência, tentando achar para sua crônica um assunto.

Que sinistro.

Porém, o dicionário continua lá, com suas centenas de milhares de verbetes, brilhando para o fascínio das eras. Não posso reprovar a surpresa que preencheu naquela hora minha percepção do dicionário. Posso contar a história à minha moda, usando o alfabeto como instrumento de informação e aprendizado. Enquanto isso, interpreto as coincidências, as metáforas.

Eu gosto muito de dicionários. Se tivesse disposição o bastante, eu leria dicionários inteiros. Considero simplesmente incrível o trabalho de elaborar dicionários. De um instante para o outro, uma palavra qualquer vira verbete e o verbete adquire um significado. Esse significado fica registrado para todo o sempre, gravado como atestado de talento da palavra para a memória.

Mas dicionários não deixam de ser também submetidos de vez em quando ao teste do tempo. Fico imaginando como seja: suspeito que venha uma banca de especialistas, experimenta dar uma lida, uma boa examinada, depois decreta: o pobre dicionário deve ser revisto, quando não reescrito por completo. É uma responsabilidade. Quem nunca precisou estudar o sentido dessa ou daquela palavra boba?

Corretor ortográfico não resolve. Não se pode dizer que o caso está na precisão de escrever, ainda que se espere dos corretores ortográficos que em dado momento passem a escrever corretamente. O caso está na precisão do saber. Ou seja, na curiosidade de conhecer o vocabulário. Sem essa curiosidade não existiriam os dicionários.

Parece uma pesquisa reles. Garanto que não é.

Gosto inclusive de brincar com a palavra do dia, função que existe em dicionários para celulares. Abre-se o aplicativo grátis e surge como sugestão a palavra do dia. O jogo consiste em usar essa palavra quantas vezes conseguirmos no espaço de curtas vinte e quatro horas. Joga-se em grupo ou individualmente.

Eu comecei um dia com a palavra “euforia”.

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sábado, 2 de setembro de 2017 0 comentários

Vendem-se balas


Na base da escadaria, a menina de rua vende balas e lembro-me de quando a expressão que a define aqui era quase apenas masculina. Existiam somente “meninos” de rua. As meninas escapavam desse destino ou então fugiam de minha vista de pedestre. Não lembro quantas meninas faziam parte da turma de “Capitães de areia”, romance de Jorge Amado, sei que neste início de século XXI as meninas parecem tomar parte igual desse time de abandonados, meninas e meninos de rua a quem nós imaginamos que o acaso empreste as refeições das manhãs e das noites.

Penso em uma esperança. A menina de rua vendia balas na base de uma escadaria e um homem passa apressadamente, percebe o que a menina vende e entrega a ela dez reais. Ele não quer a bala e a menina esboça uma expressão de surpresa enquanto o homem prossegue. Alguns metros depois, o sujeito se arrepende: percebe que não ensinou nada com seu gesto, valorizou a mendicância, o ato vicioso de pedir, e não o trabalho. Portanto, retorna. Mudou de ideia, pede a mesma bala de antes, pela qual pagou dez reais. E a menina implacável responde: se quer a bala, precisa pagar os dois reais.

Para um boçal como esse, não resta outra alternativa que pagar os dois reais pela bala, entender que gastou doze reais ao todo no doce e seguir em frente. Da próxima vez, será tão esperto quanto aquela criança, quanto qualquer um. Na entrada do show, ocupará a fila com redobrada atenção, para que não roubem o lugar cativo diante de seus ídolos. Vai também respeitar quem prepara o jantar com cuidados de enfeitar a travessa de comida sobre a mesa. Quem sabe poderá um dia admitir que a menina de rua lhe deu uma lição, neste momento não pode, porque pagar o aluguel do apê pressupõe que o chefe tenha poderosa confiança no seu faro para o gol. Talvez admita a velha lição quando subir uma escadaria e perceber que uma jovem sobe a mesma escadaria mais rápida, mais leve e mais alegre. E viver esse dia talvez seja frear os próprios passos que sobem junto ao corrimão, para não enxergar o casal abraçado depois das catracas, realizando um beijo difícil de suportar se alguém na estação não tem setenta anos.

No dia em que a menina de rua vendia balas, ele pagou primeiro dez reais, depois mais dois reais, agradeceu pela bala que estava à venda e foi embora para casa. Quando cruzou o espaço diante da loja de pães de queijo, reparou que saía uma travessa quentinha do forno, recordou-se da fome e esboçou um sorriso irritante.
         
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