quinta-feira, 11 de maio de 2017 0 comentários

Parar o quê

— Eu não sei parar.
— Simplesmente pare.
— Não é tão simples.
— Não é fácil, mas é simples, basta parar.
— Tenho medo.
— Medo do quê?
— O que faço quando parar?
— Você dá um jeito.
— Minha vida é um tédio.
— O tédio não é invencível.
— Não sei fazer outra coisa.
— Terá que aprender.
— Aprender como?
— Não consegue?
— Desculpe a minha burrice...
— Burrice é uma coisa que dá e passa.
— Não tenho como, parar é impossível. 
— Muita gente já parou.
— Mas não eram fracos como eu.
— Eram fracos igualzinho.
— Tem que ser muito forte para parar.
— É preciso querer muito.
— Eu quero muito.
— Então você vai parar. 
— Quando?
— Cedo ou tarde você vai parar.
— Tem que ser hoje.
— Que seja hoje.
— Não, talvez amanhã.
— Amanhã então.
— Tá vendo? Não rola.
— Mas se já marcou a data...
— Amanhã, né? Mas não vai dar...
— Amanhã você vai saber.
— Amanhã está muito longe.
— Amanhã está no lugar certo, apenas espere.
— Esperar é muito difícil.
— Muito difícil é parar, até que esperar é fácil.   

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sexta-feira, 28 de abril de 2017 0 comentários

Sim, concordo

Eu é que peço: por favor, me convença. Olha que eu peço com jeito, peço por gentileza, porque preciso, preciso que as pessoas se preocupem em me convencer. Quero poder dizer, com a certeza de quem cresceu em uma das maiores cidades do mundo: eu sou alguém.

Por isso, se tem o próprio valor em alta conta não se sinta inibido, tenta me convencer. Eu consigo horário, trabalho muito mas ouvirei a argumentação, vou admirar o raciocínio. Fico bobo de ver como as pessoas são boas em encontrar formas de convencer. Eu confesso que tais processos me fascinam. Com a calma dos fãs, paro para aprender com a habilidade. Sem discussão: é a maior prova de estima que podem me dar.

No trânsito, por exemplo. Convença-me de que há isenção de culpa, que ninguém bebeu ou olhou o celular, que se calava inocente enquanto dirigia. Nada nada tão difícil, uma pessoa de talento consegue fácil convencer até as autoridades.

Na balada também, ninguém se nega. O papo será com certeza o melhor, mesmo ela já sabe, é tanto conhecimento, tão bem conectado que espanta, é uma enciclopédia, nasceu com a Wikipédia na mente. Eu digo, muitas pessoas ao redor se espantam, mas exagero, não há com o que se espantar, um sujeito que passou pelo que passou, que viveu o que viveu, convencer-me é um favor que faz.

Eu queria ter mais mãos, para bater palmas e ainda cumprimentá-lo ao mesmo tempo, porque esse lance de ter razão é uma qualidade original do gênio. Como se as palavras da pessoa fossem obra da boa vontade de Deus, é uma sabedoria iluminada, um orador, quando esse orador fala, convence qualquer um. De qualquer coisa. 

Sei que não se nasce assim, quem convence dessa maneira costuma enfrentar muitas dificuldades, mas geralmente é um humilde, não tira onda. Convence porque sabe mesmo, estudou para isso, aprendeu a convencer, sou forçado a admitir. Se por acaso ligar, melhor atender, é sorte grande chegando. Excelente negócio na certa, oportunidade, dica preciosa, esteja pronto: o que é bom no mundo sorriu para você.

Só não vá responder errado, dizendo que não concorda. Para que criar um contratempo desse tamanho? Discordar de pessoa como esta... faz até mal para a saúde, capaz de você se preocupar demais sem necessidade, quando ela já veio com a solução.

Bem que me disseram, infelizmente existe quem não tolera o que é perfeito. Sério, não faz assim comigo, não insiste, insistindo desse jeito vai que você me convence. Sempre. Sabe que concordo de graça com você.

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sexta-feira, 14 de abril de 2017 0 comentários

Tesla na pole

A companhia Tesla ultrapassou a General Motors como montadora de carros mais valiosa dos EUA. Seu valor de mercado chegou a 51 bilhões de dólares por lá, o maior entre as montadoras americanas. No ranking global, a Tesla fica agora atrás somente da Toyota, da Daimler, da Volkswagen, da BMW e da Honda.

O caso em si não teria vocação alguma para vencer o noticiário econômico não fosse o fato de que a Tesla é uma montadora diferente, especializada em montar e vender carros elétricos de alto rendimento. Isso mesmo: carros elétricos. Carros elétricos valem portanto como a novidade da vez, nada de cheiro de petróleo e gasolina, o carro que queremos a partir de hoje poderia ser com certeza movido a eletricidade.

A tristeza fica por conta do mau destino do petróleo, antes o nosso querido ouro negro. Destinado a ser em breve superado pela onipresença da eletricidade em nossas vidas, o petróleo deixará de ter esse valor todo capaz de criar, segurar ou derrubar governos. Certos rincões do planeta perderão o eterno motivo de suas brigas, penso eu, imaginando aqui que dinheiro seja a única razão pela qual se briga neste mundo. Santa inocência!
  
Seria simplesmente espetacular assistir sentado ao petróleo jorrando de volta para o interior da Terra, de onde saiu um dia para impulsionar nossa espécie rumo não se sabe para onde ainda. Quem disser que sabe merece um caixote de madeira e um lugar próximo à entrada do metrô da esquina, para alardear suas fascinantes descobertas, providenciemos.

Eu brinco, mas é claro que uma influência tão poderosa quanto a da centenária indústria do petróleo não desaparecerá assim do nada do nosso convívio. Haverá um descompasso, algum tipo de estertor ou meio-termo, e o imenso e precioso fluxo de interesse e capital vai migrar, provavelmente para o setor de meias.

Meias sim, por que não? É a minha aposta. Esqueçam os motores elétricos da Tesla, caminharemos ao ar livre graças à aposentadoria do petróleo, serão muitas as comemorações, precisaremos de meias, muitas meias, para evitar o famigerado chulé nos pés do povo. Chulé ninguém quer, aposto nas meias.

A que ponto chegamos: sinto-me à vontade para comparar petróleo com chulé, uma tolice que poderia me custar um bom emprego trinta anos atrás. Todos então precisavam muito do petróleo e ainda precisam. Ou alguém em sã consciência acha que o padrão global de consumo se sustenta hoje sem petróleo? Atingimos um ponto do qual não há volta, sinto dizer. A solução está adiante, ou não. Por isso, a performance da montadora Tesla é ainda mais impressionante e importante, preocupa é o prejuízo: 5 bilhões de dólares apenas no ano passado. Seu proprietário é o ricaço sul-africano Elon Musk. Eu pergunto: quem de nós conseguiria descansar a cabeça no travesseiro à noite sabendo que é dono desse prejuízo colossal? Definitivamente, a classe dos bilionários é de uma gente que desafia as minhas boas intenções. Nasceram do ventre de uma mãe, assim como nós, morrem mais ou menos com a mesma idade, é verdade, certamente não das mesmas coisas, mas se vão, se vão. Que estranheza imaginá-los do meu canto. Melhor é tratar do meu chulé.

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sábado, 1 de abril de 2017 0 comentários

Compartilhar a vida


O senhor resolveu sentar-se na mesa mais externa da lanchonete, e dali passou a admirar o movimento da rua, bebericando um suco de acerola com laranja, mordiscando pães de queijo. A moda de ficar por ali nem teria sido notada, não fosse um camelô de bugigangas, que ao passar por aquele senhor assumiu ares de profissional muito surpreso e fez questão de cumprimentar o homem, a quem chamou insistentemente de “compositor”. Os dois tiraram duas ou três selfies animados, quem frequentava o lugar passou a enxergar o homem, sentado naquela mesma mesa quase todos os dias de sol.

O cara foi virando atração. Desavisados apontavam da calçada, a garçonete ia atender o homem sempre rapidamente, pegou fama entre os camaradas sobretudo o apelido: o compositor. Mas compositor de quê, ora essa? De música, mas que músicas? Queria eu saber a qual gênero musical o nosso artista se dedicava. Seria um sambista de primeira? Seria um letrista de pop/rock? Seria o roteirista daqueles sertanejos? Ninguém conseguia me responder, mas a imagem sobrevivia, o povo dos sucos gostava de vê-lo sentado à mesa, preocupado com a existência dos pombos e com o passeio dos cães.

É claro que reclamo do cara feito um enciumado, de apreciar aquela estada na lanchonete e não ter que me apressar para casa, atrás de mais uma leva de capítulos daquela série nova de ação. Na rua, sob as ordens da lei, ficam sós os vagabundos pela manhã, e os bêbados à noite! Que engano.

Tem uma turma que considera dever de cidadania ocupar a rua, berra com razão de cima dos coretos das praças que a cidade é nossa. Sim que a cidade é nossa, mas ocupá-la não é projeto de cidadania, é viver, é viver, amigos, é viver. O compositor lá da mesa da lanchonete concorda, talvez crie mesmo uma canção, que na voz de uma fina intérprete de nossa MPB — seja samba, rock ou sertanejo — ocupará as horas dos ouvintes. Estará criada a trilha sonora de nossas ruas, as calçadas serão o cenário polivalente, os pedestres os personagens sem vergonha. Os heróis e heroínas. A vida da gente servirá de saga, servirá de drama, servirá de comédia, quem vai rir, quem vai chorar, e nossas histórias terão sido contadas e ouvidas. Saberemos de nós mesmos então mais do que os marqueteiros nos escritórios, mais do que os jornalistas nas redações.

Todo esse movimento porque se resistiu a ficar apenas em casa, entre quatro paredes fortuitas. Fugiu para descansar na rua, foi fazer hora, fui tomar sol, fui espairecer e encontrou quem? Nem que seja um pálido olhar, quiçá uma conversa com palavras! E se tornaram amigos. Compartilharam a vida.

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domingo, 19 de março de 2017 0 comentários

No sol sou de assar as coxas


Por causa de uma corrida sob sol forte contraí assaduras. Elas atacaram-me na parte interna das coxas, como sinal de que elas — minhas coxas — atingiram um perímetro proibido, em que se tocam durante meus exercícios.

Ora, ora, que notícia! Vejam como sou: não poderei mais correr sossegado em toda a cidade. Em qualquer pista onde arriscar meus passos sobre tênis de corrida lá estarão meus detratores, a gargalhar de minhas futuras assaduras como quem vê da própria janela um dinossauro ainda vivo. Eles existem, não tenham dúvida, não os dinossauros, os que riem de meras assaduras. Só de imaginar meu andar assado e enviesado, as pernas tortas na calçada, a boca contraída em um efeito de quase espasmo, esses bárbaros ególatras sorriem. Se me veem na rua tomar a direção da farmácia mais próxima certamente disparam uma foto para o celular do amigo, em segundos a comunidade descobre o meu problema. Nada mal!

Foi para isso que inventaram a internet: para rir com mais eficiência da vida dos outros, não sabiam? Até as assaduras, não escapam nem as minhas assaduras, o que devo fazer a respeito? Mudo-me para a ilha de Páscoa. Parece que junto das famosas cabeças gigantes da ilha de Páscoa a internet não pega. No caso nem seria necessário mudar-me, nesta cidade a vantagem é a mesma.

Mas deixo as minhas assaduras para lá, tratei delas, já já brinco de bom. E o meu coxão? Este terei que partir em dois... brincadeira, de volta àquela dieta encomendada anos atrás, que deu certo de cara, mas que abandonei depois. O negócio é coxão duro, nada de coxão mole, coxa no tamanho certo e sem as assaduras, que ardem para burro, só que ninguém vê. Ainda bem, por isso conto e não mostro, não é bonito.

Bonito é o mar, são as pistas de corrida ideais para o meu exercício. Bonito é o horizonte aberto, largo diante dos olhos, desfazendo os focos de estresse. Gosto muito de correr, mas prefiro as ruas, fujo das esteiras, meu cenário é esta cidade em ação, as bicicletas passando, os pedestres da mesma vibe passando, os cachorros nas coleiras, até mesmo os carros. Em minha última viagem, arrumei um tempo para também correr, passeei.

Há para mim algo de vital nos exercícios ao ar livre. Academias funcionam, é claro, prestam serviço essencial. Mas eu decido me tratar nas ruas, sou da caminhada, sou do passeio, olho para baixo e olho para cima, para a frente é que se anda, vou descobrindo o comércio novo, as lojinhas e galerias. Os camelôs que surgem. Entro nos mercados, atravesso nos sinais, cuidado com os nossos buracos. Olha a cigana, os hare-krishnas sumiram, o pessoal toca flauta, guitarra, cavaco. Pede dinheiro para UNICEF, pede dinheiro, vende amendoim e paçoca, despista os pivetes. Sacode a ordem, sacode o caos. Cada assadura que arrumo é esta a história.

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domingo, 5 de março de 2017 0 comentários

Eu também sou folião


Não sou um folião típico. Dos que vão a blocos, vão à Sapucaí, dos que decoram os sambas-enredos das escolas, os sucessos da Bahia. Não sou o folião típico, minha folia é de outra ordem, que não cabe classificar aqui, sob pena de provocar desgostos e protestos. Neste sábado de carnaval eu voltava do cinema, onde conferia a programação pré-cerimônia do Oscar, cerimônia que este ano coincidiu com o desfile das nossas escolas de samba. Que dilema para os caseiros, acompanhar a transmissão em inglês da glamorosa festa americana ou assistir à farra majestosa e organizada de nossos desfiles. Este ano então, no Oscar teve gafe, uma gafe!, pode ter sido uma escolha difícil. Mas eu no sábado voltava do cinema.

As ruas no caminho para casa estavam vazias, a escuridão ajudava a refletir sobre o filme, eu cruzava direto com os alegres beberrões indo ou voltando de algum lugar, os encontros ajudavam a lembrar que a festa estava a um passo do meu caminho, um pequeno atalho e lá iria eu, povoar os blocos com mais uma fantasia, mais um contraste, mais uma danação.
  
Só que o filme era bom e a reflexão provava ser sedutora. Eu habitava a noite de carnaval trocando impressões com a rua irreverente, temendo encontros tristes, encontros medonhos, desencontros. Acompanhava os prédios e as portarias, os sinais verdes e as calçadas.

No final da rua escura, depois do mendigo no chão estirado como quem se aproveita do sono e reavalia os sonhos, vislumbrei o casalzinho. Sentavam na mureta que delimitava o início do condomínio, respiravam e observavam o nada. Este nada talvez fosse o horizonte de uma praia pacífica onde pudessem se esconder das confusões vizinhas. Apesar da noite, minha noite estava clara, repleta de personagens familiares, aqueles fantasiados que antes vira, a inquietude era igual. Já o casalzinho era estranho. Não haviam trocado a festa por uma sessão de cinema, haviam trocado a folia de nosso carnaval pelo prazer de uma noite básica, em que se olhava simplesmente para o nada.

De mãos dadas.

Tão fácil dizer agora, é certamente ostentar cinismo debochar daquela especialização: eu faria a mesma troca, e eu testemunhei, então vou pensar assim, que foi recado irônico, os dois seriam na verdade meus líderes. Chamem uma equipe de televisão, ou o hospício, conforme a versão. Mas não, os dois humildes correriam das câmeras, não recebi vídeo pelo whatsapp. Não desejavam ser líderes de ninguém, de nenhum bloco. Era somente uma ousada fantasia: estavam de mãos dadas no carnaval.

Eu passei por eles, vi aquela avenida. O filme muito bom, o almoço fora um churrasco supergostoso, na noite anterior eu dormira como se deve. E antes a sexta, antes a quinta, quando me dei conta era carnaval.
                 
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domingo, 19 de fevereiro de 2017 0 comentários

Me mostraram um filme de amor


Não quero entregar ao leitor nenhum spoiler de “La La Land”, nem mesmo repercutir demais o filme, já indicado ao Oscar e outros prêmios, mas nosso clima anda tão tropical e raivoso que aproveito qualquer chance para falar de amor. Confesso que "La La Land" me tocou, deu vontade de caminhar por aí depois de assistir, deu vontade de cantar uma canção, até de sapatear e amar deu vontade.

Falo de sapatear e o verbo me remete à parte dolorida da memória: quantas vezes sapatearam com sucesso no meu peito! Impossível contar os sacolejos, eu apenas sei que consegui perdurar. Reconheço também que sapateei também sobre corações, nunca por vingança, juro. Mas eu vou recordando... enganou-me outra emoção.

“La La Land” é um romance brilhando na superfície de um planeta que gira em torno de si arrasado pelos conflitos. Acontece que a nossa espécie tenta assimilar os desastres e daí arranca do peito um filme que fala de amor como se amor fosse papo de nossas mesas de jantar. O amor voltou às paradas, meus leitores, aproveitem porque não será para sempre, logo voltaremos àquela emoção pasteurizada e engana-trouxa dos ensaios filtrados. Em "La La Land" escapamos de ver o amor de mercado, esse é um filme de amor que nos ilude como a gente gosta.

Enquanto escrevo percebo que falar de amor nos constrange, mas o amor veste melhor que fantasia de carnaval. Ao simpático par de atores se permite representar para nós no escuro da sala de projeção um romance banal, ainda que holywoodiano. Seus protagonistas não se destroem, não se matam, não estão mentindo.

Que ilusão! Que presente.

Com “La La Land” na cabeça ouso sonhar com o amor, atravessar a rua, alcançar o metrô, saborear uma cerveja, estou no mesmo lugar de antes, mas posso falar de amor sem ouvir pragmatismos de autoajuda, não é véspera do meu casamento, ou véspera da minha separação.

Alguém falou de amor, falou sim e eu ouvi. Contou uma história com todo o cuidado, colocou até música para que melhor ouvíssemos. Não é uma história baseada em fatos reais, mas não tem de ser. Dizem, dizem, dizem. Parece que falar demais sobre o amor atrapalha esse lance de amar. Talvez. E se alguém ouve? Acontece o quê com quem ouve sobre o amor?

Enfim, quero apenas concluir sobre "La La Land": não que eu tenha gostado demais do filme, é um tanto mais que isso, gosto é pra valer do assunto.

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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017 0 comentários

Permissão de localização ativada
















Depois de instalar um desses aplicativos que promovem encontros, agora com base na proximidade entre os candidatos, o passo seguinte é vadiar pela cidade. Pois quanto mais o candidato anda e circula, mais chances de captar o perfil de seu possível par ele tem. A lógica é: cruzou com aquela mulher incrível, se ela também procura por alguém no aplicativo, certamente te perceberá na pista, uma examinada na tua foto é garantida.

Semana passada, com o aplicativo instalado, fui testar a novidade. É claro que ativei a permissão de localização, algo que antes não permitia, por que entregar onde me encontro? Nunca quis que me perguntassem: o que faz aí? Melhor fingir ao telefone que não escutou... você está onde?

Permissão de localização concedida, fui pela cidade a conferir de perto calçadas e monumentos. Não precisava mais admirar constrangido as mulheres lindas, podia ignorá-las com segurança, em minutos seus perfis estariam na tela do meu celular, entregando as melhores fotos, as frases de efeito e até as profissões.

Que maravilha.

Para tímidos como eu, é uma ironia.

Escolhi como destino uma cafeteria internacional, onde se vendem shakes de café. A fila enorme, mas o ambiente de eficiência prometia. No salão de sessenta metros quadrados, cerca de trinta pessoas bonitas se espremiam loucas por um café de cinema. A freqüência era bastante diversificada, perfis para todos os gostos.

Percebi que muita gente conferia o celular, será que já captaram meu perfil? Entrei na fila logo atrás de uma garota de peruca roxa, as mechas picotadas largadas com cuidado sobre a testa. Brincava no celular também. Eu preferi não mostrar o meu, fiz jogo duro. Fui lá saborear o shake. 

Meu problema é que estou gordo, mas não havia o que fazer, tinha de provar a torta red velvet, última fatia do balcão, não importa que velha. A caixa entendia do que estou falando, ela me representa: nome em inglês, torta estrangeira, trouxe a última fatia sem estardalhaço. Pôs na minha frente. Depois o copão de shake, decorado com chantilly por cima.

Uma vez sentado, resisti à tentação de conferir o aplicativo. E a caixa me entregara a senha do wi-fi, o que tornava a tarefa de me conter meio impossível: experimentar a velocidade da conexão naquele café era obrigação do programa. Foi difícil, meditação ajuda, acabou que deu certo: sentado à mesa de uma beldade esculpida em gente, preocupada à vera com as novidades do facebook, comi e bebi quase que serenamente.

Quinze minutos depois, terminado o lanche, fui embora. Não me despedi. O sol forte estava doce feito o meu sangue.

No metrô, também não saquei o celular. Eu desprezo o wi-fi do metrô, não sou tão promíscuo assim. Precisava da minha casa, na segurança de minha própria rede as empolgantes candidatas surgiram. Na tela do aplicativo. Mas não consegui ainda nenhuma combinação. Penso no passeio de amanhã, a permissão de localização continua ativada. Será que é muita exposição?
           
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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017 0 comentários

Bela conversa na pequena fila do cinema

— E então? Qual filme?
— Que tal este? Tá quase na hora.
— Este não.
— Por que não?
— Tem aquela atriz, não gosto dela. 
— Mas ela sempre faz os filmes desse diretor.
— Pois é, desde que trabalham juntos não assisto mais a filme dele.
— Sabe que ela é muito boa, não sabe?
— E como, só que não consigo.
— Do que se trata essa rejeição?
— Que rejeição, não gosto dela, sou obrigada a gostar?
— Claro que não, mas você mesma admite que ela é boa.
— Sei lá, Freud explica. 
— Pensando bem, vocês duas até que são parecidas.
— Imagina.
— É verdade, incrível como nunca reparei antes.
— Parecida como? Quer dizer fisicamente?
— Fisicamente total, mas também a personalidade...
— Tá bom, você conhece a personalidade dela...
— Outro dia assisti a uma entrevista, é muito igual. 
— Não acho.
— Pode acreditar, vocês duas são gêmeas.
— Ela é muito bonita.
— Você também.
— A voz dela é um tesão.
— O timbre é o mesmo. 
— Tem corpão também.
— Que nem o seu, um pouco mais sarada.
— E eu não vou à academia faz tempo.
— Dizem que é super inteligente.
— Eu sou inteligente, não sou?
— Claro que é.
— Legal, vamos nessa então.
— Bacana, olha o cartaz do filme! 
— Espera um pouco, ela está loira!
— Sim, muito gata.
— Eu sou morena...
— Mas pode pintar...
— Não sei se quero ver esse filme. 
— Quê isso, por quê?
— Acabo de me lembrar da sinopse.
— O que tem a sinopse?
— Ela trai o marido besta com o professor barrigudo.
— E daí?
— Daí que estou vendo o meu professor logo ali na fila.
— Melhor outro filme então.
— Que tal Woody Allen?

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sábado, 7 de janeiro de 2017 0 comentários

A memória a quilo


Quando eu era criança não havia restaurantes de comida a quilo. A novidade surgiu um pouco mais tarde. De repente, em um instante dezenas de restaurantes passaram a vender comida na balança. Eu na época apenas estudava, comia sempre em casa, portanto não tirava vantagem da incrível invenção. Assistia de longe: em um só prato brilhavam juntos o bife de panela e a bolinha de queijo (típica das festas de casamento e aniversário), também cabiam no prato o arroz com feijão e o churrasco, a lingüiça frita ao lado da salada. Foi uma febre.

Outra coisa que não existia quando eu era criança são as grades protegendo as portarias dos edifícios. Nem tenho conta das vezes em que, voltando da escola, invadi em correria as portarias da rua, brincando de piques mil. As mães vinham em conversação no caminho, aproveitando o convívio, nós crianças corríamos para frente e para trás freneticamente, sempre sabendo que a brincadeira tinha prazo para acabar: quando as mães chegassem à nossa portaria teríamos que nos resignar e subir, chateados porque em seguida viriam obrigações como o dever de casa, o banho, a janta, deitar na cama quietos e dormir.

Outro lance que nessa era não existia é a fila única de banco, com senha ou sem senha. As filas de banco então imitavam as das caixas de supermercado. Sei porque ia ao banco sempre: meu pai foi comerciante, cartão de crédito se usava pouquíssimo, eu e meus irmãos é que fazíamos no banco o depósito dos cheques. Confesso que ir ao banco nunca deixou de ser essa tarefa aborrecida, papai pedia, tínhamos que discriminar na guia de depósito os cheques um a um, somar com velha calculadora, conferir, sair de casa depois do almoço e enfrentar as filas. Nos horripilantes dias 10 (depois dias 5), o banco enchia terrivelmente e sofríamos. Se déssemos a sorte de escolher uma fila boa, tudo se resolvia em 15 minutos, caso contrário a espera podia durar mais de hora. Enfrentar a fila longa às vezes podia ser jogo também, sabendo que o caixa trabalhava em ritmo acelerado. Lidávamos com uma espécie de ciência.

Cito estas memórias de forma sucinta, já que não é minha intenção sobrepesar ninguém de lembranças cascudas. Digo por curiosidade, talvez o leitor não seja tão nascido quanto eu e ainda passeie. Saber destes detalhes pode ajudar em algo, o que duvido. Estes detalhes mal servem até para memes, aposto que nem ao Google importam.

No calor deste verão importa mesmo a qualidade do aparelho de ar-condicionado, outra novidade que apenas o colega rico da escola gozava. Assim como o videocassete, que no século XXI sumiu da memória. Sumiram também os açougues de rua, tão numerosos antes quanto as farmácias hoje. Multiplicaram-se os carros, caminhões e aviões e tal e tal, et cetera e tal.

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sexta-feira, 23 de dezembro de 2016 0 comentários

Férias, este privilégio


O plano é simples: o sujeito agradece à vida pelo emprego que tem e tira férias, enquanto a senhora da foice não chega, porque a aposentadoria... essa não vem mesmo. Para ocupar uma parte das férias ele decide por curtir rapidamente, pois a senhora inflação também fez o seu trabalho, nosso poder de compra é o de uma sabiá travessa, pelo menos pra mim, que sou um homem banal, que pensa em mar durante as férias.

Meu destino de viagem rápida foi nosso litoral carioca. Onde estão as praias? Lá fui eu atrás de água salgada. Não demorei a captar no arco de minha visão a imagem da areia branca que eu adoro, adiante o azul do oceano. Besuntado de filtro solar, fora raios UVA e UVB, quis mergulhar na água límpida.

Senti a civilização aí. Dei-me conta do celular, carteira, chave de casa. Olha a responsabilidade versus a liberdade, a comunhão ideal com a natureza prejudicada. Do celular eu queria as fotos, férias têm um quê de malandragem perante à comunidade. Neste instante da famosa era comum não se foge mais das férias alheias, lidemos com as imagens e palpitações.

Precisava do celular inclusive para ligações. E da minha carteira? Não conseguiria me livrar dela também, queria depois do mergulho provar uma água de coco, por exemplo. Levaria só dinheiro? Mas e a passadinha no quiosque para comer um negocinho, beber uma cerveja gelada? Sem cartão não dá. A chave poderia abandonar no bolso fechado a velcro da bermuda. Duvido que molhada bloqueasse meu retorno ao lar em pele fumegante, alucinado por uma chuveirada fria que me separasse do sal.

A civilização é esta: experimente uma praia de nosso litoral e verá que o introito impõe suas condições, junto aparece um mal-estar nada passageiro, reagindo contra nossa burrice de plásticos largados na natureza incomparável. Civilização tem mais a ver com destruir do que pensamos. E nos enganamos imaginando que tem como dar certo, não há qualquer garantia disso, a gente se extingue a partir do bom-dia. Sem parar.

Preciso terminar a crônica. Salvaram-me da inadequação terrível duas senhoras que conversavam enquanto seus netos brincavam na água rasa. De outra vez salvou-me um pescador, a quem perguntei se o mar não estava muito mexido. Entreguei minha civilização para eles e virei um peixe. Sabe como é, peixe deste nosso mar não fecha olho. Era um olho meu na onda e outro na civilização ancorada na areia.

Esta é a minha última crônica do ano, volto agora só em janeiro do ano que vem, quando completarei três anos como cronista regular da RUBEM! Agradeço de coração ao Henrique Fendrich por acreditar no meu trabalho, aos leitores pela presença aqui no blog e pela paciência. Espero ter ajudado a preencher nossos dias com boas leituras. Desejo a todos um Feliz Natal e um belíssimo 2017!

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quinta-feira, 8 de dezembro de 2016 0 comentários

Facebook distópico


Uma celebridade deixou de seguir outra nas redes sociais e virou notícia. Parece que os namorados famosos não postam fotos juntos desde outubro. Uma assessora desmente que tenham terminado, a relação está ótima, se o status mudar, será anunciado.

A notícia não surpreende: esse tempo estranho chegou, certamente não preciso avisar ao leitor. Nem digo que foi de repente, temos caminhado por esta estrada desde o início do século, muito fácil ver a estrada, o leitor sabe que este cume alcançado nada mais é que o sonho de Zuckerberg, que o mar em que nadamos não é outro que a viagem proposta por Steve Jobs. São os gênios da raça, diz a conta bancária, oremos.

Tento moderar para não ficar cansado. Sabe Alberto Caeiro e outros que nada disseram sobre Facebook, Twitter, Instagram, Snapchat e demais redes sociais? Não nos ensinaram como usá-las. Temos aprendido na marra, e quanta marra temos suportado por pretender manter um canal aberto com tanta gente. Refiro-me à marra dos haters. Nunca se odiou tanto. Ou nossas redes sociais funcionam como deveriam? São uma espécie de muro onde o sujeito conectado deve expressar seus ódios insuperáveis? Fora da rede o sujeito veste a pele de um cidadão-cordeiro, toma fechada no trânsito, passam o cara para trás no trabalho, ele agradece. Bota para dentro do corpo a ira em forma de açúcar, no wi-fi de casa eis a sua hora. Somos coitados diante de sua argumentação premiada pelos pombos.

Eu trato de ir noutra direção, que inclui textos aos quais o autor dedicou mais do que apenas ferozes cinco minutos. Sei que é difícil competir contra tanta mágoa, contra tanta corrente iracunda, mas por acaso no princípio deste mundo, quando inventaram a internet, imaginei que seria diferente? Eu não imagino como cheguei até aqui.

Percebo que teclo pelos cotovelos. Minha crônica de hoje é bradar, bradar como desejo o meu pedaço do queijo. Posso ser mais um ratinho assustado no planeta, mas pelo menos estou vivo. Passo um recado para quem na boa espera salvar-se em outra vida: se o mundo é este onde nos desentendemos com estardalhaço, o além não pode ser muito melhor. Quem está lá, um dia brilhou aqui, vejam como ficou este breve picadeiro.

Talvez lá sejamos os haters daqui e tenham que nos tolerar. Só isso? Nasce, cresce, reproduz e morre, pense em uma cerveja artesanal gelada na companhia de Gandhi, Jesus Cristo ou Buda, chego lá e o que existe é um Facebook distópico povoado por figuras lendárias. Para deixar comentário inbox pego a senha.

Eu sei, esta crônica sofre do sal. Vou ali comer minha sobremesa. Enquanto isso fique à vontade, mas faça o favor de não pôr os pés no sofá. Meu humor melhora depois de um cafezinho.

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sábado, 26 de novembro de 2016 0 comentários

Sorriu

Neste desalento, do qual os parvos se aproveitam e com peito aberto ousam arrancar-nos a razão, um sorriso era tudo de que eu precisava. Foi um sorriso daqueles lentamente preparados sob o sol que banha a cidade nesta véspera de verão. Foi um ostentar de dentes que nada tem a ver com aqueles das selfies nem com aqueles da publicidade ou das câmeras de tevê. Foi um sorriso que rendia homenagem aos ventos concordes da tarde, um sorriso que não prende, antes liberta. Lembro deste sorriso agora que a distância meteu entre nós umas horas, uns dias e tantas outras histórias. Um sorriso para além dessas histórias todas, conquistando um sim da memória, sem avesso, sem recomeço. Apenas aquele movimento frágil de músculos, provocado sabe-se lá por quê. Eu quase sei o porquê, por isso é que teimo, por isso que arrisco, como se tentasse forjá-lo, um sorriso que se abriu e cruzou cerca de vinte metros, abençoando meu humor de canalhices. O sorriso que imagino (não sei se lembro ou se já imagino) foi tramado por uma humanidade rabiscada no ar, feito um verso que não carece de nome. Fora o medo e a dor, fora a soberba e o ódio, o sorriso me venceu. Embora não pretendesse, somente eu penso na vitória de uma estúpida competição entre nós? Este sorriso existe e já quero lhe dar trabalho, precisa vencer, não paro de pensar nisso. Eu recebi um sorriso genuíno, esta é a questão. E não sei o que fazer com ele. Genuíno, mas não grato, um sorriso grato, ainda que lindo, seria uma forma de obrigação. Este em linhas parvas foi grátis, mas não é injeção na testa, não é ônibus errado. Ele não fracassa, ele nem mesmo queria que eu o redissesse no mundo. A boca apenas sorriu.

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sábado, 12 de novembro de 2016 0 comentários

Caça e caçador discutem a relação

— Você vai me caçar aqui?
— É o que eu pretendo.
— Mas até aqui?
— Não vejo nada de errado com o local.
— Não é território de caça.
— Quem disse?
— Disseram.
— Disseram?
— Tá vendo algum outro caçador por aqui?
— Não mesmo, mas isso não quer dizer nada.
— Por quê?
— Tem muito caçador que se disfarça.
— Vai por mim, não há caçadores neste lugar.
— Então serei o primeiro.
— Primeiro não, primeiro é ruim.
— Ser o primeiro é muito bom.
— Vou te dizer uma coisa: ser o primeiro não garante nada.
— Como é?
— O pessoal vai rir de você.
— Não tem problema.
— Vão te odiar.
— Tudo bem.
— E te evitar na rua. 
— Não acredito que façam isso.
— Um dia um caçador mais jovem tomará o seu lugar.
— Ele que venha. 
— Quer arriscar?
— Sim, quero caçar aqui.
— Suponho então que você tenha a licença.
— Claro, demorou um tempão pra conseguir.
— E acha que vai se dar bem.
— Acho não, tenho certeza.
— Melhor eu ir andando então.
— Você tem meia hora.
— Só meia hora?
— Depois disso é cada um por si.
— Cuidará da minha família se eu perder esta briga?
— Não caço filhotes, prometo.
— Sei... então nossa amizade é isso? 
— Tá demorando muito, o tempo está correndo.
— Uma última perguntinha...
— Fala.
— Se eu pagar, por quanto você arrega?
— Deixe-me ver, o preço é o da tabela.
— Mais o por fora.
— É claro! Você pensa que vive onde?     

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domingo, 30 de outubro de 2016 0 comentários

Faço o melhor negócio


— Boa tarde, eu quero brownie.
— Claro, quantos vai levar?
— Eu quero todos.
— De qual sabor?
— De todos os sabores.
— Mas isso dá mais de cem brownies.
— Tudo bem, quanto é?
— Você vai dar uma festa?
— Vou sim.
— Sinto muito, mas não posso vender tudo.
— Por que não?
— Preciso deles no quiosque. 
— Precisa pra quê?
— Para o pessoal aqui do bairro. 
— O pessoal do bairro também vai comprar tudo?
— Com certeza, eles adoram este brownie.
— Eu pago à vista.
— Não posso, sinto muito.
— Quero falar com seu patrão.
— O patrão não pode atender, viajou.
— E deixou o quiosque na sua mão. 
— Isso, eu vendo brownie direto aqui.
— Não tem gerente?
— Sou eu mesmo.
— Rapaz, eu disse que compro o seu estoque.
— Você pode encomendar se quiser.
— Eu preciso deles pra hoje.
— Pra hoje não dá, cem brownies é muita coisa.
— Onde você aprendeu a ser vendedor?
— Aprendi na prática mesmo.
— E aprendeu direitinho.
— Sei tudo deste brownie, da receita do produto à embalagem.
— E não quer me vender os brownies?
— Sinto muito, o estoque não está à venda.
— Deve ser bom esse brownie.
— Nunca provou?
— Nunca, mas me recomendaram.
— Quer um? Experimenta o tradicional.
— Este aqui tem nutella? Dá este.
— Leva o tradicional também, faço desconto nos dois.
— Negócio fechado.
— Tá vendo? Cliente meu não fica insatisfeito.

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